Chico Buarque venceu o Prémio Portugal Telecom de Literatura 2010 com “Leite Derramado”, em segundo lugar ficou “Outra Vida” de Rodrigo Lacerda e em terceiro “Lar,” de Armando Freitas Filho. O anúncio do Prémio decorreu ontem, em São Paulo (Brasil) com uma homenagem especial a José Saramago, que contou com a presença de Pilar Del Rio, sua mulher, e da sua grande amiga, a escritora brasileira, Nélida Piñon.
Chico Buarque vence com “Leite Derramado”, o seu quarto romance que conta a história de um homem já velho, que está num hospital e que relata a sua vida para quem quiser ouvir. “Outra Vida” também é o quarto romance do escritor Rodrigo Lacerda, e narra uma família numa estação de autocarros tentando voltar para a cidade natal. “Lar,” do escritor Armando Freitas Filho, ganhou o terceiro lugar com poemas que representam peças espalhadas da vida oprimida de um rapaz no típico universo burguês dos anos 50 no Rio de Janeiro.
Este ano, o júri do Prémio votou em 9 obras das 10 que estavam nomeados, uma vez que o livro “Caim” de José Saramago, a pedido da Fundação Saramago e da Companhia das Letras, editora do escritor no Brasil, foi retirado desta lista por forma a serem reconhecidos outros autores de língua portuguesa. Esta decisão vai ao encontro, também, de uma vontade do Prémio Portugal Telecom de Literatura, de homenagear José Saramago, pela sua vida e obra e por considerar que não poderia deixar de mostrar o seu reconhecimento por aqueles que contribuíram para dignificar o nome de Portugal e, neste caso muito específico, a língua portuguesa.
Os Vencedores
Leite Derramado, Chico BuarqueNo seu quarto romance, o escritor Chico Buarque criou mais um personagem marcante. Depois do narrador anónimo de Estorvo, do modelo fotográfico Benjamin Zambraia e do ghost writer José Costa, agora é a vez de um homem com mais de cem anos, preso a um leito de hospital, de onde vai relatando, a quem quiser ouvir, a história de sua vida. A mão firme do escritor não escorrega um minuto e monta um verdadeiro quebra-cabeças, com pedaços de memória espalhados em mais de 200 páginas. A primeira linha narrativa é a história do narrador, Eulálio d’Assumpção, com sua mulher Matilde, que a certa altura do livro desaparece com sua cor morena, seu cheiro, sua dança, sua beleza e mistério. E o pano de fundo é o Brasil do Império, da República, da ditadura militar, até os nossos dias, indo do escravatura ao universo da corrupção.
Chico Buarque nasceu no Rio de Janeiro, em 1944. Considerado um dos maiores compositores brasileiros, também é dramaturgo e romancista. A sua trajectória ficcional começou com Fazenda Modelo, publicado em 1974. Mas foi apenas nos anos 90 que essa vertente da sua obra ganhou a força e a dimensão que tem hoje, com a publicação dos romances Estorvo, Benjamin e Budapeste.
Outra Vida, Rodrigo LacerdaOutra vida é o quarto romance do carioca Rodrigo Lacerda. Nele, o escritor, sem abrir mão do humor característico das suas narrativas, procura tratar da vida contemporânea a partir da história de um pequeno núcleo familiar, formado por um homem, uma mulher e a sua filha de cinco anos. A acção passa-se numa rodoviária, com toda a família a esperar a chegada do autocarro que a levará de volta para a cidade do litoral de onde vieram. Será o começo de uma vida nova, depois de um período difícil na cidade grande, quando o marido, se envolveu numa história de corrupção. Família, questões éticas, destino amoroso incerto: com esses elementos, Lacerda faz um retrato forte da vida brasileira contemporânea.
Rodrigo Lacerda nasceu em 1969, no Rio de Janeiro. Publicou os seguintes livros: O mistério do leão Rampante (novela, 1995, prémio Jabuti e prémio Certas Palavras de Melhor Romance), A dinâmica das larvas (novela, 1996), Fábulas para o séc. XXI (livro infantil, 1998), Tripé (contos, 1999), Vista do Rio (romance, 2004, finalista dos prémios Zaffari & Bordon, Portugal Telecom e Jabuti), O fazedor de velhos (romance juvenil, 2008, prêmio de Melhor Livro Juvenil da biblioteca Nacional, prémio de Melhor Livro Juvenil da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil; incluído no catálogo White Ravens), Outra vida (romance).
Lar, Armando Freitas FilhoEm Lar, o poeta carioca Armando Freitas Filho, um dos nomes mais importantes da lírica brasileira, privilegia a memória como elemento central para a construção de seus poemas. A vírgula após o título serve de jogo de possibilidades poéticas: é como se a partir dessa célula inicial (Lar), o poeta parasse, suspendesse a fala, para depois compor a sua lembrança. Como ele mesmo chegou a dizer, este é o seu “Boitempo”, referindo-se ao ciclo de poemas memorialísticos de Carlos Drummond de Andrade. As peças espalhadas retratam a vida de um rapaz oprimida pelo típico universo burguês dos anos 50, no Rio de Janeiro, entre a casa, a escola, a igreja e a praia.
Armando Freitas Filho nasceu no Rio de Janeiro, em 1940. É autor de Palavra, Dual, À mão livre, 3x4 (Prêmio Jabuti de Poesia, 1986), De cor, Números anónimos, Fio terra (Prémio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional, 2000), entre outros livros. Reuniu sua obra poética em Máquina de escrever (2003).
Os finalistas
A Passagem tensa dos corpos – Carlos de Brito e MelloAvóDezanove e o segredo do soviético – OndjakiLar – Armando de Freitas FilhoLeite Derramado – Chico BuarqueMonodrama – Carlito AzevedoO Filho da mãe – Bernardo CarvalhoOlhos Secos - Bernardo AjzembergOutra Vida – Rodrigo LacerdaPornopopeia – Reinaldo Moraes